Quem encara as 283
páginas do livro A Culpa é das Estrelas, do escritor norte-americano John
Green, não imagina a batalha pessoal que o autor enfrentou para finalizar a
trama. Foram pouco mais de dez anos tentando concluir uma história que parece
triste, mas não é, e que parece fácil, mas também não é.
“Enquanto eu
escrevia, queria que o livro fosse engraçado, mas a pessoa que escrevia estava
com muita dor”, disse ele em entrevista por e-mail ao SaraivaConteúdo.
O livro, que já
entrou para a lista de best-sellers nos EUA, trata da vida de dois adolescentes
diagnosticados com câncer, Hazel Grace e Augustus Waters, personagens difíceis
de esquecer mesmo quando a obra acaba.
Parte do sucesso do
livro deve-se ao fato de Green ser um autor que compreende bem o universo
adolescente. Além de escrever livros para esse público – o que não impede
adultos de gostarem de seus trabalhos –, ele faz vídeos ao lado do irmão, Hank,
no Vlogbrothers, também tendo os mais jovens como público-alvo. Ele remete o
segredo do sucesso com esse nicho a duas palavras: autenticidade e respeito.
Na entrevista abaixo,
o escritor fala mais do processo do livro – as dificuldades e as inspirações –,
do seu Vlog, um grande hit da internet, e da relação com os fãs – inclusive os
brasileiros.
Há um momento no livro em que a personagem Hazel diz: “Livros sobre
câncer são os piores”. Como você buscou fugir do que é, geralmente, esperado de
obras com histórias como essa?
John Green. Bem, acho que o que Hazel menos gosta nos livros sobre
câncer é a forma como eles romantizam e até mesmo desumanizam quem tem a
doença. Geralmente, a pessoa doente é apenas uma criatura de olhos tristes que
será lembrada pelas pessoas saudáveis como alguém que lhes ensinou algo. Mas,
claro, essa não é a história sobre a pessoa doente, e sim sobre as pessoas
saudáveis.
Então, eu quis dar vida própria às pessoas doentes, algo que não fosse
fazer a vida das outras pessoas melhor. Quis dar a elas o poder, colocá-las no
centro da história e mostrar que, mesmo doentes, elas são irônicas, engraçadas,
interessantes, têm raiva e estão vivas como nós. A Culpa é das Estrelas foi
inspirado em uma garota, a Esther. Você pode nos contar quem era ela?
John Green. Esther era uma fã dos meus livros e dos vídeos que eu
faço com meu irmão. Eu a conheci em uma conferência, em 2009. Nos tornamos
amigos e fomos amigos até a sua morte (ela teve câncer), em agosto de 2010.
Esther era uma pessoa incomum, e conhecê-la me lembrou de como os adolescentes
podem ser introspectivos e ao mesmo tempo ter uma empatia estonteante. Pensar
sobre essas qualidades me deu uma nova visão dessa história que tentei escrever
por 10 anos. É importante dizer que Esther era muito diferente de Hazel e que
eu certamente não quis me apropriar da história dela. Mas eu jamais poderia ter
escrito este livro se não a tivesse conhecido. Ela inspirou cada palavra.
Hazel é uma personagem encantadora. Assim como Augustus. Adolescentes
irônicos, engraçados e conscientes de suas limitações. Como você faz para
acompanhar o universo dos adolescentes?
John Green. Bem, conheço muitos adolescentes. Leio as centenas de
comentários que eles deixam no YouTube, Twitter, blogs, e isso me ajuda a
entendê-los enquanto vou ficando mais velho.
Foi um livro fácil de escrever?
John Green. Não. Tentei escrever essa história por muitos anos e
continuava falhando, o que era extremamente frustrante. Foi difícil por muitas
razões, mas acho que a principal é que eu queria que os personagens fossem
pessoas reais – engraçadas, irônicas, com raiva, inteligentes – e eu não queria
perder essas características por serem personagens que estavam doentes. Isso
foi difícil. Eu seguia caindo no sentimentalismo e romantizando os personagens
e sua falta de sorte. Além disso, foi difícil porque eu estava triste. Triste
e, francamente, com muita raiva. Isso porque Esther havia morrido, e muitas
crianças morriam todos os dias por falta de comida e remédio. Isso começou a
consumir minha escrita. Então, enquanto eu queria que o livro fosse engraçado,
a pessoa que escrevia estava com muita dor. Porém, escrever pode ser difícil,
mas é mais fácil do que 99% dos outros trabalhos. Não é uma tortura ou algo do
tipo.
Você tem outro livro já publicado no Brasil, Quem é Você, Alasca?. A
impressão é de que um ponto comum entre esse livro e A Culpa é das Estrelas é
que ambos são histórias sobre como a vida de uma pessoa pode impactar e mexer
com outras vidas. Faz sentido?
John Green. Sim. Sou muito interessado na forma como as histórias
nos conectam e em outras formas de nos conectarmos uns aos outros. Nós estamos
conectados não só às nossas famílias e amigos, mas àqueles que vivem longe, aos
mortos e aos que ainda nem nasceram. Nós, que estamos vivos, temos uma imensa
responsabilidade sobre os outros. E mais, somos tolos se pensamos que nossas
ações importam apenas para nós ou para os mais próximos. Toda vida afeta outra
vida.
Vlogbrothers é um enorme sucesso na web. Qual o segredo da sua
popularidade com o público adolescente?
John Green. Tentamos ser autênticos e respeitar a inteligência da
nossa audiência. Adolescentes são muitas vezes rebaixados ou tratados como se
fossem menos interessantes ou inteligentes que os adultos. No entanto, a minha
experiência é que os mais jovens são mais inteligentes e profundamente
compassivos. Nossos vídeos são, geralmente, muito bobos, mas o conceito do
projeto é de que, juntos, nós podemos ser cidadãos melhores e mais conscientes
no mundo. E acho que os adolescentes respondem bem a um mix de seriedade e
brincadeiras.
Você está muito presente na web e parece estar sempre acessível aos
fãs. Você costuma receber mensagens de leitores brasileiros? Como é a relação
com os fãs?
John Green. Sim.
Recebo notícias de leitores brasileiros quase todos os dias. Na verdade, estou
agora mesmo no meu escritório olhando uma camisa de futebol autografada pelo
Pelé que eu ganhei de alguns leitores brasileiros. Eu adoro futebol (torço pelo
Liverpool, que tem dois brasileiros, e jogo futebol no YouTube, em um time
fictício com sete jogadores brasileiros). Meus leitores sempre me perguntam o
que acontece após o final de um livro. Acho que eles acreditam que eu guardei
algum segredo e vou contá-lo se eles me perguntarem na hora certa. Mas assim
como Van Houten [personagem escritor do livro A Culpa é das Estrelas], não sei
mais nada depois do final, e acho que a história pertence aos leitores.
Hazel e Augustus são personagens apaixonantes e muito vivos, presentes.
Você sente falta deles?
John Green. Sinto. Nunca gostei tanto de escrever da perspectiva de
outra pessoa como pela de Hazel, e sinto falta de poder carregar a voz dela
comigo durante um dia inteiro. Mas ao mesmo tempo sou muito grato, pois, após
mais de dez anos, isso está feito e terminado e as pessoas podem ler. Fico
feliz de ter deixado essa história sair.
No livro, o maior medo do personagem Augustus Waters era ser esquecido.
De alguma forma, você acha que escrever uma trama inspirada em Esther deu a ela
um modo de ser lembrada para sempre? Você já pensou nisso?
John Green. De fato, pensei sobre isso, mas, no final, concordo com
Van Houten: escrever enterra, não traz de volta. Tentei contar uma história
bonita sobre doença e perda, mas não pude contar a história de Esther. Ela
estava muito viva, e era complexa e fascinante demais para eu capturá-la. Mas
espero que a memória dela continue inspirando as pessoas a serem mais
generosas. Esther vai viver através da ajuda das pessoas, do voluntarismo, e
não pela minha pequena história.
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